quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

in(deed)

dessa vez ela não acha mais que é drama

reordena as ideias
enumera os prós
as intuições
a lua
o sol


não que ela esteja sã
faz tempo que as sinapses não ocorrem da melhor forma
o coração aperta com facilidade
as extremidades congelam quando algo sai do previsto

mas ela pensa
o tempo todo


remoe
revive
reprograma

de uns tempos pra cá ela tem tido medo de se perder
de esquecer o que importa
o que faz bem

e decidiu que seria assim (de novo)

só o que faz bem fica

sem desespero
sem dor

ninguém nunca que pode ocupar todos os sentidos

mas se eles importam
são eles que ficam

e confirma o previsto:

primeiro os sentidos
todos
ocupados
e acolhidos

depois
o resto

primeiro in
depois out

quarta-feira, 15 de junho de 2016

chão


dia desses decidiu: as ambições são superestimadas
admirava os de vida tranquila
com pouco dinheiro
com muito prazer

admirava os de razão serena
os de motivo ar
os que acordam pela beleza do sol
pra admirar o céu
pra ver o dia passar na calçada

admirava, com prazer, as pessoas de vida simples
a moça ar do emprego na livraria
que tinha o que precisava
fazia o que queria

talvez ela não possa viajar pra europa
ou ir passear pelo rio de janeiro nas férias

mas pensando bem
a moça de vida chão, também não

a vida dela é assim:
corre contra o tempo o tempo todo
acorda pra cumprir ordens
dorme cedo pra cumprir os planos do dia seguinte
vive a segunda, planejando a quinta
no domingo já sofre pela terça

e na sexta?
dorme cedo porque os planos do sábado estão a todo fogo

quanto mais evoluem os planos, quanto mais se concretizam
menos amor ela sente
com menos vontade ela vive

ela não se decepcionava
ela sofria desde o começo, pra na hora da decepção tá calejada e já nem sentir
ela sofre o tempo todo achando que, assim, vai doer menos no fim
não sabe ela
que assim
ela só doi
ela só vai

ela já foi.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

fim(dar)


ela se iguala ao fim do poço

se revira entre as pedrinhas pontiagudas que lá habitam

não deseja a volta

por ora, deixar estar

quieta
machucada
silenciosa
cortada
sozinha.

sem cobranças
sem gritos
sem choros

a diferença é que ela escala
uma hora ela escala

sem aptidão
sem instrumentos

ela sobe
devagar
com força
mas devagar

e quando chega
ela celebra
ela insiste
ela continua

porque quando a gente mergulha
quando a gente vai até o fundo
a gente anseia a subida

pra respirar
pra recuperar a vida
os dias
o coração


terça-feira, 15 de março de 2016

(de)gelo



~e os tempos do gelo voltaram ~


de início não entendeu

havia se certificado do fogo

acendeu o fósforo final
confirmou o incêndio,
a chama
a erupção

dizem que foi o clima que mudou
a temperatura que diminuiu
a umidade que abaixou dos limites

pensou em mudar de cidade
de país
de mundo

tinha se apegado ao calor
ao rubor
ao suor
a não-dor

tava mais fácil sentir
a temperatura desnudava
a umidade inundava de prazer



a velocidade que aquece, é a mesma que esfria!


o aquecimento ela provoca
já a neve vem do gelo

vem do frio
dos outros

(e gelo não se apaga, se abafa ou se controla: gelo queima os sentidos, gelo dói)